Relatos de viagem: viajar para a Índia marcou minha vida!

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Prestes a completar 40 anos e o desejo de “carimbar” etapa de vida com algo inesquecível. Inicialmente quem sabe uma viagem com propósito de trabalho voluntário? Onde? Ok, Índia pode ser uma opção interessante. E quanto mais eu pesquisava sobre o país mais eu queria estar lá. Parecia que minha alma buscava liberdade, mesmo diante do caos que encontraria. E a decisão mudou… vou viajar para a Índia sim, mas sem grupo de voluntariado. Vou sozinha!

# Viajar para Índia sozinha

E diante do anúncio, o esperado impacto. Mas você vai sozinha? Não é perigoso? Não é lá que estupram mulheres? Você está louca!

Sim, vou viajar para a Índia sozinha, estou devidamente informada. No último momento, ganhei de presente a companhia de uma amiga querida, mas a decisão do ‘eu vou’ e a definição do roteiro foi individual e intransferível. E são nesses processos decisórios que começa o processo de libertação.

Afirmo que ler previamente sobre a cultura não corresponde ao impacto de estar em um lugar com padrão zero de higiene, esgoto a céu aberto, gente convivendo harmoniosamente nas ruas com vacas, cabras, cachorros e pombas, comidas cobertas de moscas sendo vendidas em ruas repletas de cocô de vaca, homens ‘saindo pelo ladrão”, filas enooormes de pessoas grudadas em você (“fila indiana”), trânsito sem lei, onde prioridades e incidentes são resolvidos na buzina e no “gogó”!

No geral, a população é agitada, fala alto, fura fila e frequentemente tenta enganar as pessoas (não só turistas). Confesso que essa parte foi a mais surpreendente… pensei que encontraria pessoas um pouco mais espiritualizadas.

Bundi Festival | Como é viajar para a Índia
Bundi Festival | Como é viajar para a Índia

Os templos em  geral e, sobretudo, os hinduístas, são sujos, mal cuidados, tumultuados, sem espaço para um momento de oração e tranquilidade. Um verdadeiro ‘ponto’ de recebimento de oferendas e doações ( o apelo é gigante!). É dinheiro que não acaba mais sendo doado por quem pouco tem e indo não sei pra quem (provavelmente para os marajás que culturalmente ainda dominam o país).

Confesso que nosso roteiro não foi dos mais inteligentes com relação à logística porque eu queria estar em 2 lugares específicos em 2 datas específicas, Taj Mahal no dia do meu aniversário e Pushkar na festa típica de feira de camelos,  e a melhor logística não atenderia esses 2 pré-requisitos. Assim sendo, não seguimos o ‘tradicional roteiro’ da região, o que na realidade não mudou em nada.

# Como é viajar para a Índia

Nossa aventura contemplou 3 Índias distintas:  A “verdadeira Índia”, caótica e única, que inclui a capital Delhi e região do Rajastão (Jaipur, Pushkar, Agra, Bundi, Udaipur, Jodhur, Jaisalmer), “Índia litorânea”, na região de Goa, que nem parece Índia, de colonização portuguesa, tradição católica e russas fazendo topless na praia e a tão esperada  “Índia Zen”, na região de Rishikesh, no norte da Índia, região onde estão a maioria dos Ashrams e a nascente do Rio Ganges.

Lotus Temple - Delhi
Lotus Temple – Delhi

# Chegada em Delhi

Cheguei em Delhi e lá estive por uma semana sozinha até a chegada de uma amiga que me encontrou em Pushkar. Para ir do aeroporto ao hotel eu pedi para o hotel que providenciasse um taxi. Achei mais seguro.

A ideia inicial era arrumar um guia para a temida Índia. Cheguei e já saí do hotel para a primeira missão que foi, rapidamente abortada rs. Mal saí às ruas e aquelas dezenas de tuks tuks em frente ao hotel já tentando me ‘abduzir’ para fazer pacotes de passeios (são MUITO  insistentes). Bom, quando que quero, eu sei me impor. Não é não e ponto! E assim saí andando a pé, com meu mapa em mãos, em busca de uma rua próxima onde teriam agências de turismo.

Nessa trajetória você já começa a sentir o ‘vuco vuco’ que serão os próximos dias rsrs. A falta de higiene já é totalmente notada, o tuk tuk, as motos e as bicicletas no mesmo espaço que os pedestres, os distintos cheiros, a poluição visual e o som das buzinas, a grande sinfonia ensurdecedora que vai mudar eternamente seu padrão de tolerância ao barulho rs vai por mim!

Logo nos primeiros metros, mais abordagens. Agora de homens simpáticos e educados, que falam inglês, que perguntam sua origem, te dão boas vindas, perguntam há quantos dias você está no país, se está gostando e oferecem ajuda, perguntando o que você está procurando. Neste instante, declara-se aberta a temporada de ‘golpes’ rsrs. Eles são terríveis e tentam te enganar o tempo todo.

Templo Sihki - Delhi
Templo Sihki – Delhi

Nesse caso, como eu buscava por agência de turismo, o indiano me recomendou que eu ficasse muito atenta às empresas de turismo que tentavam enganar os turistas. Disse-me que eu deveria procurar uma agência governamental que tratava do turismo local pois eram seguras e com preços justos; se ofereceu a ir caminhando comigo até o local. Quando eu agradeci, dizendo que não precisaria,  que eu havia entendido a indicação do local e que iria só, eles se despediu de mim, mas, imediatamente, pegou o celular e ligou pra alguém, falando hindu.

Em menos de 100m um outro me abordou, seguindo exatamente o mesmo ‘ritual’ do colega anterior e assim foi (ou seja, meio que funcionam em rede) até que me cansei, e acabei entrando em uma dessas agências só pra conseguir se livrar da ‘rede de assombrações’ que me seguia. Nesse momento você tem a clareza de que não se trata de nenhuma agência de governo etc e pra sair sem fechar pacote tive que ser até meio mal educada.

Conclusão: achei infinitamente mais seguro eu passar esses dias em Delhi fazendo meu turismo ‘solo’ do que contratar algum guia e foi assim que fiz e foi tudo perfeito.

Complexo Qutb Minar
Complexo Qutb Minar

As dicas de ouro que eu dou pra quem se aventurar são as seguintes: inicialmente, não acreditem em ninguém, perguntem no hotel a estimativa de quanto o tuk tuk cobra em cada trecho que deseja percorrer (pra você ter noção quanto estiverem te explorando) não usem tuk tuk que fica em frente ao hotel ou pousada. Saiam andando e busquem algum em alguma rua próxima (tem aos montes), cujo motorista só fale hindu.

No segundo dia que estava lá, tive essa experiência e voltei a ter sossego. Quando o motorista só fala hindu, você mostra no mapa onde quer ir e pergunta ‘how much’  e ele te leva exatamente onde você quer e ponto. Já esses que falam inglês, te atormentam o tempo todo querendo te vender um pacote de passeios fechado para o dia, te sugerindo locais, te aloprando sobre qual será sua programação do dia seguinte. É tenso! Outra coisa que eu fazia era acompanhar o trajeto no meu GPS pra ter a certeza que estavam me levando onde eu solicitei.

# Partindo para Pushkar

De lá parti para Pushkar (onde encontrei minha amiga),  que é um local com uma das melhores vibes da Índia e pôr-do-sol exuberante às margens do rio sagrado. #sqn em tempos de festa típica! A tradicional vibe local foi totalmente invadida pela vibe tradicional do país com aquele amontoado de gente, desordem, muita feira livre e, nesse caso, muitos camelos enfeitados.

Pushkar | Como é viajar para a Índia
Pushkar | Como é viajar para a Índia

É uma festa tradicional, muito interessante e com muitas atrações típicas. Pra quem curte viver intensamente a cultura local, vale a pena. Mas ainda assim, foi possível participar de algumas cerimônias hinduístas ao longo do rio.

# Viajem para Agra e o famoso Taj Mahal

De Pushkar a Agra fomos de trem, de Agra a Jaipur de avião e depois fizemos o trajeto Jaipur, Bundi, Udaipur,  Jodhur,  Jaisalmer retornando a Jaipur de carro com motorista à disposição e guia turístico em cada local. Contratamos uma agência indicada por um casal de conhecidos que esteve alguns meses antes por lá. O motorista era um fofo e se comunicava bem em inglês já os guias locais rs ficavam no máximo 1 ou 2 horas conosco e já davam o trabalho por encerrado.

Agra é a casa do tão famoso Taj Mahal, maior prova de amor do mundo. Tão exuberante e imponente que nos faz esquecer de que trata-se de uma mausoléu. O ideal é chegar em Agra com tempo suficiente de ir ver o pôr-do-sol na parte dos fundos, no jardim do Taj, como li em vários relatos de viagem. Mas não se engane … se você estiver hospedada próxima à entrada principal do Taj Mahal, seu tempo de percurso até ‘a parte dos fundos’  é de aproximadamente 1 hora. Depois disso ainda vai levar uns 20 min caminhando do portão até o local adequado. Assim sendo, vá com tempo! ! Outro lugar imperdível é o Forte de Agra.

Outra dica: calibre suas expectativas com relação às fotos. Chegamos antes das 06:00 imaginando pouca gente mas o pouco, já é muito naquele lugar rs

Taj Mahal - Agra
Taj Mahal – Agra

# Jaisalmer

Do trajeto Jaipur, Bundi, Udaipur,  Jodhur,  Jaisalmer escolho detalhar a estadia em Jaisalmer que foi uma experiência única na minha vida.

Tudo começou com a vontade de viver a experiência de se hospedar num “hotel” próximo ao deserto para dormir ao relento admirando as estrelas. Após o primeiro contato com o responsável a afinidade se fez presente e um forte laço de amizade se iniciava. Meses de contato que estreitavam ainda mais aquele laço de amizade até a chegada da data combinada… ele já me chamava de irmã e eu já o chamava de irmão, nos falamos quase que diariamente…já conhecia a história de vida dele e de sua família.

Finalmente a data do check in, que era também a data do aniversário dele!! Chegamos, convivemos um pouco com a família, almoçamos e a tarde saímos para conhecer um vilarejo próximo. Ali conhecemos quase todos os moradores, fomos carinhosamente convidadas a entrar em cada casa, nos serviam chai, nos contavam de suas vidas através de gestos, olhares e tentativas de algumas palavras… mas não eram necessárias muitas palavras, só o amor já era suficiente para se manter a comunicação.

Mala Ki Dani 2 - Jaisalmer | Como é viajar para a Índia
Mala Ki Dani 2 – Jaisalmer | Como é viajar para a Índia

Tivemos também a sessão de beleza … me passaram maquiagem nos olhos, pintaram minhas unhas de vermelho, colocaram adesivo e tinta na testa. E assim passamos a tarde, imersas em todos esses gestos de carinho.
Voltamos para nosso alojamento, fomos ver o pôr-do-sol do alto de uma montanha próxima. Como sempre, mais um espetáculo …

De volta para o alojamento, colocamos as camas ao relento onde passaríamos a noite. Os preparativos para a comemoração já começavam… sim, era aniversário do meu amigo irmão, que fez trinta anos e nunca havia celebrado seu aniversário… teve decoração, bolo, velinhas e happy birthday.

Depois uma cerimônia oficial onde trocamos pulseiras que simbolizam que, na cultura indiana, ele me escolheu como irmã para vida toda … depois eu e minha amiga ganhamos pulseiras típicas indianas, carinhosamente compradas por ele para que usássemos na festa… ganhei também minhas roupas indianas que não usei na festa por conta do frio, mas usei no dia seguinte.

Fim de festa, fomos deitar para admirar as estrelas … no meio da madrugada a lua, como um presente se fez também presente. Em seguida, presenciar o amanhecer de mais um dia inesquecível na minha vida.

Com certeza, essa foi uma das melhores e mais emocionantes experiências que já vivi. Num local sem nenhuma estrutura tal como água encanada e energia elétrica encontrei as mais lindas paisagens… pessoas especiais, o carinho, o sorriso, a pré-disposição para o convívio e o partilhar do quase nada que se tinha! Até hoje continuamos em contato.

# Retorno a Jaipur

De Jaisalmer finalizamos nosso ciclo de pacote terrestre com retorno a Jaipur e de lá, um trecho aéreo de Jaipur a Varanasi, cidade também sagrada onde pessoas enfermas escolhem estar para morrer e serem cremadas em cerimônia local, às margens do Rio Ganges. Nesse trajeto eu fui sozinha, pois minha amiga, um pouco impactada com a realidade local, achou que não aguentaria mais essa ‘emoção’ e assim decidiu ir diretamente a Goa onde nos encontramos novamente em 2 dias.

Se até o momento eu achava que a Índia era caótica e que mais caos do que ‘Old Delhi’ não seria possível era porque eu não conhecia Varanasi! Só quem se permitir experimentar entenderá o que é estar lá e o verdadeiro significado da palavra vulnerabilidade. Em Varanasi não existe lei! Eu continuo tentando entender como é que tanta gente transita naquele caos sem se acidentar e morrer. É realmente surreal e só tem um jeito de sobreviver a isso: confiar em algum ser Supremo e se jogar na cultura local! Rs

Jaipur - Jawar Circle Garden
Jaipur – Jawar Circle Garden

Apesar do relato ser um tanto quanto descontraído a situação no local me provocou muita reflexão e várias vezes uma profunda tristeza de saber que tantas pessoas vivem em condições tão sub-humanas. Para elas, por conta do costume, está tudo ok mas é muita discrepância. O país já não está mais no controle dos marajás mas, pelo que se comenta, a riqueza e o poder continuam como sempre foram, ou seja, com os marajás.

Como Varanasi é um lugar muito sagrado e para onde vão muitas pessoas para ‘aguardar’ a morte, existe muito comércio informal e também muita gente na condição de pedintes e dormindo nas ruas por toda parte. Muito triste.

Na cidade existem templos famosos a serem visitados, com filas gigantes e as mais terríveis condições de higiene e arrecadação de doações. Lembrando que você só entra nos templos descalça. Então amiga, desapega e vai! Tenho certeza que voltei totalmente autoimune rs.

Nós levamos daquelas pantufas descartáveis para toda a viagem mas, em muitos templos, não te permitem usá-las e quando permitem, uma coisa tão simples como retirar seus sapatos, colocar a pantufa e guardar seus sapatos na mochila torna-se um desafio de alta complexidade em meio a tanto tumulto, empurra- empurra e olhares de julgamento rs.

# Cerimônia de cremação em Varanasi

Dito isso, vamos falar agora da grande tradição que é a cerimônia de cremação. Inicialmente, senti certa insegurança com o que seria visto, com os odores, enfim, com algo tão distinto de nossa cultura. Porém, acreditem se quiser, mesmo com a cidade em todo o caos descrito anteriormente, no ambiente às margens do Rio, a energia é de paz. Eu não consigo explicar porque é algo que só o coração entende.

Cremacao corpos - Varanasi
Cremação de corpos – Varanasi

Nesse local, reina a paz, apesar de você continuar vendo coisas desagradáveis tais como sujeira, vacas circulando livremente, os pedintes amontoados pelo chão, pessoas insistentemente tentando te vender passeios no Rio (que inclusive eu fiz para ver o nascer do Sol e é incrível).

Mal cheguei ao local e rapidamente conheci uma Australiana que também estava sozinha e, cansada de ser ‘abduzida’ por aqueles indianos insistentes, se ofereceu para estarmos juntas naquele período. Foi ótimo. Inclusive no dia seguinte fizemos o passeio no rio e nos templos juntas e que torna a ‘missão’ um pouco mais segura rs.

A margem do Rio possui alguns quilômetros então quando você chega lá, tem ainda uma caminhada para ir se adaptando e aos poucos se aproximando da rampa onde o ritual acontece e é tudo muito respeitoso. Existe uma parte mais alta, tipo uma casa de madeira, de onde eles descem com os corpos. Estes estão enrolados em um tecido, em sua maioria, na cor laranja e com alguns detalhes em dourado e a maca é feita de bambu.

O corpo é então, banhado na água do Rio e depois colocado numa rampa com muita madeira e assim é queimado na companhia das vacas que desejarem estarem por lá. A família presencia de perto e os turistas e demais locais precisam manter distância.

Quando você faz o passeio no Rio, de barco, consegue ver em outro ângulo e de forma mais próxima. O local cheira madeira queimada. E é MUITA madeira. São vários barcos com muitos troncos que ficam ali pelo Rio com o estoque.  Existe também uma parte onde a cremação segue os moldes convencionais mas o desejo de todos é seguir a tradição. O que não consegui a informação é como que as cinzas são devolvidas à família já que se queima com tanta madeira. À noite também existem cerimônias ao longo do Rio. Muito lindas para conhecer um pouco mais a cultura local.

Cerimonia Rio Ganges frente Parmath Ashram- Rishikesh
Cerimônia Rio Ganges frente Parmath Ashram- Rishikesh

# Viajando para Goa

De Varanasi parti para Goa encontrar minha amiga que já me esperava por lá para um breve e merecido descanso depois de dias tão agitados.

Goa é dividido em 3 regiões e nós nos hospedamos e conhecemos apenas a região de Morjim por conta dos poucos dias que teríamos por lá. Goa é o verdadeiro Ocidente em meio à Índia. À exceção de bastantes indianas vendendo cangas na praia e alguns indianos curtindo a praia de roupas tradicionais, no geral, a praia é frequentada por turistas e, em sua maioria russos. Vários deles possuem casa de veraneio no local.

A colonização local é portuguesa e a religião predominante é a católica, mas pasmem: passamos sufoco na região durante visita às igrejas. Por toda Índia carregávamos echarpes para cobrir ombros e cabeça, mas em poucas situações nos foi exigido, porém, em Goa, fomos proibidas de adentrar à igreja porque estávamos de blusa sem manga e lá foi o único lugar que não nos preocupamos com isso rsrs Tivemos que nos virar comprando uma camiseta em uma feira próxima mas depois que fizemos toda essa operação emergencial e voltamos, eles tinham montado uma mesa na porta e estavam vendendo echarpes rs Ai ai …. rs

# Rishkesh

De Goa partimos para Rishkesh, nosso destino final onde a expectativa era, finalmente, encontrar a Índia Zen, sobretudo, porque nossa hospedagem era no Parmarsh Ashram, um dos mais tradicionais do local.

Conforme esperado, instalações simples, mas que não destoavam muito do restante da viagem já que foi uma viagem com controle de gastos. Seguindo o padrão Índia, a higiene também deixa um pouco a desejar principalmente no que diz respeito às áreas comuns e, principalmente, sala e material para aulas de Yoga.

A expectativa deu uma boa afastada da realidade rs. Esperávamos uma região mais tranquila onde pudéssemos relaxar e praticar Yoga. Dentro do Ashram, até que tínhamos certo grau de tranquilidade mas,  do portão pra fora, a ‘verdadeira Índia’ reinava e era o mesmo ‘vuco vuco’ das regiões anteriores. Diria que um pouco menos de trânsito e mais espaço dedicado a pedestres e animais (vacas, cabras, cachorros, pombas e macacos), que sempre convivem socialmente.

Devido à falta de higiene e ao frio que fazia nessa região (contrastando com o bafo das regiões anteriores) decidimos postergar as aulas de Yoga para nosso último destino, que seriam 4 dias de hospedagem VIP (entendemos que era merecido rs) num centro de retiro de yoga chamado Ananda Lok,  mais ao norte da região, onde teríamos à nossa disposição a nascente do Rio Ganges.

Rio Ganges - Varanasi | Como é viajar para a Índia
Rio Ganges – Varanasi | Como é viajar para a Índia

Ficar hospedada no Parmath Ashram realmente foi um presente. Existe uma cerimônia que acontece rotineiramente, no horário do pôr-do-sol que é imperdível e recompensa muito dos perrengues enfrentados ao longo da nossa jornada. A cidade tem uma vibe incrível, um visual bem bonito, é um tanto quanto mais limpa que as demais regiões.

# Rio Ganges

E para encerrar essa temporada, nada mais merecido do que 4 dias em algum lugar mais tranquilo com direito a mergulho no Rio Ganges. E pasmem!! Parece uma praia! Areia branca às margens e água totalmente na cor esmeralda. Um sonho!

A chegada até o local foi conturbada e com sentimento de culpa e tristeza. O centro de yoga fica num pico e a travessia é somente por meio de caminhada, estradinha de terra, com algumas pedras, que a torna escorregadia, uma ponte móvel que balança um tanto, enfim, algumas aventuras.

Ananda Lok - Rio Ganges - Rishikesh
Ananda Lok – Rio Ganges – Rishikesh

Para as malas, segundo informações, teríamos burros de carga. Eu já não gosto desse tipo de coisa mas, depois de várias ponderações, era o único recurso. Chegando ao local e hora marcada a decepção… não tínhamos os animais (que naquele dia não estavam disponíveis), tínhamos homens para carregar nossas malas nas costas e na cabeça por todo aquele percurso.

Gente, pensa num coração machucado… foi uma das piores sensações da minha vida. Fiquei arrasada, chorei ao chegar ao hotel, assim como após algumas outras experiências durante a viagem, mas já estávamos lá e era a única maneira de chegar.

Chegando lá, a surpresa… éramos as únicas hóspedes da temporada. Como esse local foi uma dica de ouro da minha amiga e nós ‘batemos o martelo’ desse destino final durante a viagem, foi ela quem cuidou de tudo. Reservou então, dois quartos com banheiros individuais (momento praticamente único de privacidade durante todos esses dias rs).

As instalações gerais eram ok, lugar com muito espaço e um jardim bonito etc mas pensa num quarto cubículo que praticamente não cabia a mala? Mais uma decepção rs.  Pelo preço e por tudo mais, achei o quarto precário, mas tudo bem; engoli o choro e por ali ficamos. Estávamos exaustas e o que mais queria era um banho quentinho com água boa (lembrem-se que era um centro de retiro de ioga então a expectativa estava mais alta). E adivinhem se meu chuveiro funcionou? Claro…que não!!

Antes de prosseguir preciso contar que, na Índia o banho  quente funciona da seguinte forma:  em cima de cada chuveiro tem um compartimento de ‘x’ litros que é o aquecedor d’água. Antes de tomar banho você precisa ligá-lo por 15 min e esperar a água esquentar. Daí você está lá, no meio do seu banho delícia e: supresaaaa! A água quente acaba!! Isso mesmo, acaba! E se você quiser terá que esperar mais uns 15 minutos pra esquentar de novo. Em alguns hotéis, você não tem nem mesmo este comando, ou seja, você precisa solicitar na recepção para que liguem. Legal, né? #sqn!

Udaipur - Silawatwari
Udaipur – Silawatwari

Dito isso, acrescento que, em decorrência de já termos passado por vários contratempos relativos a banhos em nossa estadia em Jaisalmer e depois de 33 dias de peregrinação e perrengues, minha tolerância estava um tanto quanto abalada.

Voltando para o caso do chuveiro do centro e yoga, o rapaz responsável, por sinal, um fofo de pessoa fez de um tudo para arrumar mas a resposta final foi, só amanhã. Nossa… na boa, surtei! Daí eu falei tanto e tanto que ele me colocou em outro quarto.

Aí sim, me senti num resort. Aquilo não era um quarto, era uma mansão. Quarto enorme, cama de casal gigante com colchão e travesseiro confortáveis como os meus, um antessala, banheiro espaçoso. Me senti no Ocidente.

A outra surpresa na nossa chegada foi a seguinte… Nós continuávamos focadas em fazer umas aulas de yoga afinal, estávamos na Índia. Como no Ashram a higiene da sala de aulas estava comprometida pensamos, vamos deixar para o resort … passaremos dia todo na Yoga. E claro, que não! rs A sala e o material estão lá mas o detalhe é que, quem quiser usar o espaço, tem que levar o professor ou contratar algum particular rs.

No mais a estadia foi perfeita. Nossas refeições eram no rooftop com uma vista maravilhosa do rio, a comida fresquinha, servida com cuidado, coisa de novela. O rapaz nos acompanhava para passeios em trilhas, nos levou conhecer sua família que ficava no caminho desse passeio, nos serviram chai, nos levou ver um templo gigantesco com acabamento todo em ouro que está sendo construído bem no pico de uma colina (detalhe é que todo esse material de construção é levado pelos animais de carga, no lombo).

Nesse lugar, finalmente encontramos a Índia Zen. A natureza resplandecente, pessoas gentis, um templo dentro de uma gruta para meditar em silêncio e toda a exuberância daquele Rio Sagrado, completamente limpo, de água esmeralda, areia branca e cheio de vida com sua água corrente.

Rishikesh | Como é viajar para a Índia
Rishikesh | Como é viajar para a Índia

E esse dia, no Rio, foi meu dia de despedidas e de recomeços. Momento em que escolhi me despedir daquele país de corpo e alma lavados no Rio Sagrado. Momento escolhido, também, para agradecer e me despedir do ano de 2018 e de todo e qualquer peso que eu havia carregado até então,  já que havia decidido não mais os levar comigo.

Durante o mergulho do corpo, um mergulho profundo na alma, onde se fez presente a gratidão pela vida, com todas as dificuldades e aprendizados e, sobretudo, por todos que dela fizeram e/ou fazem parte. Por fim, surgia um coração renovado de amor.

Foram 37 felizes e inesquecíveis dias e noites de adaptação num ambiente caótico no qual eu escolhi e quis estar, e que me possibilitou “carimbar” que o ‘ser’ independe do ‘estar’ e, portanto, a paz interior independe de qualquer caos exterior.

Ter me permitido viajar para a Índia, viver essa oportunidade de transformação e renascimento diante da diversidade realmente marcou não só os meus 40 anos mas sim toda minha vida!


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